
No mundo dos transplantes, o relógio é o adversário mais implacável. Para garantir que a esperança de um recomeço chegue a quem aguarda na fila, o Governo de Mato Grosso do Sul mantém uma estrutura de prontidão absoluta. Através da Coordenadoria de Transporte Aéreo (CTA), da Casa Militar e da Secretaria de Estado de Governo (Segov), o estado consolidou uma rede logística que já realizou 39 missões de captação desde 2023, sendo 10 delas apenas nos primeiros meses de 2026.
A operação mais recente ocorreu nesta terça-feira (24), quando a equipe decolou para Dourados para captar rins e fígado. A capilaridade do serviço impressiona: as asas do governo sul-mato-grossense já buscaram vida em cidades como Goiânia (GO), Brasília (DF), Rio de Janeiro (RJ), Porto Velho (RO) e Curitiba (PR).
Decolagem em 60 minutos
A eficiência do programa reside na prontidão dos pilotos, uma equipe mista formada por profissionais da Polícia Militar e Polícia Civil. Segundo o delegado e piloto Enilton Zalla, o acionamento exige uma resposta quase instantânea.
“Podemos ser chamados a qualquer momento. Todos nós somos preparados para estar no lugar em no máximo uma hora. É um voo diferenciado, que exige habilidade para ser o mais rápido possível e atender a essa demanda de entrega do órgão”, explica Zalla.
O Coronel Marcos Paulo Gimenez, Chefe da Casa Militar, reforça que o convênio é uma engrenagem que não para. “Funcionamos muito bem e já salvamos várias vidas. Fazemos este trabalho sempre que há compatibilidade e disponibilidade, em qualquer dia da semana ou horário”, pontua.
O fator “Tempo de Isquemia”
Para o médico cirurgião Gustavo Rapassi, responsável pelo programa de transplantes de fígado, rins e pâncreas no Estado, o apoio aéreo é o que separa a perda de um órgão do sucesso da cirurgia. Devido às dimensões continentais do Brasil, o transporte comercial muitas vezes não atende à janela necessária para a viabilidade do órgão.
“O transporte facilita bastante porque o tempo de deslocamento é curto e melhora o resultado do transplante. Pacientes em fila estão em situação de vida ou morte; se perdemos um órgão por falta de transporte, não sabemos se aquele paciente terá uma segunda chance”, alerta o médico.
Apelo à Solidariedade
Além da técnica e da velocidade, a missão carrega um peso emocional para os envolvidos. O piloto Zalla, que atua nessas missões há sete anos, lembra de um paciente que só conseguiu o transplante na 13ª tentativa. O sucesso daquela missão transformou a visão da equipe sobre a importância de sensibilizar a sociedade.
“Quem tiver acesso a esta mensagem, eu peço que estimule o seu familiar a ser um doador. Eu sei que é um momento muito triste, a perda de um familiar, mas que possamos pensar que alguém está precisando. Assim, mais pessoas poderão ter suas vidas salvas”, finaliza o delegado.
A integração entre a medicina de alta complexidade e a aviação de segurança pública em Mato Grosso do Sul segue como um modelo de eficiência, garantindo que a distância não seja um obstáculo para o direito à vida.

