
As eleições deste ano em Mato Grosso do Sul consolidam uma transição profunda na forma como os candidatos buscam dialogar com o eleitorado. Especialistas apontam que as redes sociais assumiram um papel central na formação da opinião pública e na definição das estratégias de campanha, impulsionadas pela popularização de plataformas como Instagram, TikTok, Facebook, WhatsApp, YouTube e Telegram.
O ambiente digital oferece aos candidatos comunicação direta com o eleitor, velocidade de circulação, capacidade de segmentação por públicos e baixo custo de produção. A intensificação na produção de vídeos curtos, transmissões ao vivo e conteúdos diários por pré-candidatos ao governo, ao Senado e às vagas proporcionais reflete essa realidade em que as plataformas operam de forma contínua — diferentemente do calendário delimitado do horário eleitoral gratuito na televisão e no rádio.
A mudança atende à evolução do perfil do eleitorado: enquanto os mais jovens consomem informação predominantemente em meio digital, faixas etárias acima dos 40 anos também adotaram aplicativos de mensagens e redes sociais como fonte primordial de debates políticos.
O papel complementar da TV e a força no interior
Apesar do avanço das redes, especialistas alertam que a televisão mantém sua relevância estratégica. Nas disputas majoritárias e nas cidades do interior de Mato Grosso do Sul — onde a audiência da TV aberta permanece alta —, o horário eleitoral gratuito segue essencial para dar visibilidade a nomes menos conhecidos, apresentar propostas de governo estruturadas e alcançar o eleitor que não acompanha política diariamente nas redes.
Além da diferenciação do público, a Justiça Eleitoral enfrenta desafios acrescidos com a aceleração digital, impondo regras rígidas para a identificação clara de materiais que utilizem Inteligência Artificial (IA) e mantendo a proibição do uso de deepfakes. Em relação aos influenciadores digitais, a legislação permite a manifestação espontânea de apoio, mas proíbe a remuneração ou a contratação da categoria para impulsionar conteúdos eleitorais.
Análise: Exposição contínua vs. impacto imediato
Para o cientista político Daniel Miranda, professor e pesquisador da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), os dois meios desempenham funções complementares durante a corrida eleitoral:
“O horário eleitoral na TV e no rádio alcança as pessoas apenas durante o período oficial da campanha. Já as redes sociais estão presentes no cotidiano do eleitor 24 horas por dia, dependendo do tempo que cada pessoa permanece conectada.”
— Daniel Miranda, cientista político e professor da UFMS.
Conforme Miranda, a exposição contínua na internet atua de forma acumulativa no eleitor, enquanto o tempo de TV gera um impacto mais imediato devido ao caráter oficial da transmissão.
Na mesma linha, o sociólogo Ricardo Luiz Cruz, também professor da UFMS, observa que os meios não se substituem, mas sim se retroalimentam: “Vivemos hoje sob o domínio da imagem, e a comunicação política é um reflexo dessa realidade, adaptando-se às diferentes plataformas para dialogar com o eleitor.”
Engajamento digital não garante vitória nas urnas
Se por um lado a presença nas redes tornou-se indispensável, por outro ela não assegura isoladamente a conversão em intenção de voto. A avaliação é do diretor do Instituto de Pesquisas Resultado (IPR), Aruaque Fressato Barbosa.
| Fator Analisado | Impacto Real na Campanha |
| Presença Digital | Aumenta a visibilidade e dá sustentação ao voto, mas dificilmente elege um candidato de forma isolada. |
| Métricas de Alcance | Números de seguidores ou curtidas devem ser analisados ao lado do sentimento das interações (positivo vs. negativo). |
| Estratégia Completa | O sucesso exige a integração entre atuação digital, trabalho de campo e articulação política regional. |
“A exposição nas redes sociais aumenta o nível de conhecimento do candidato, mas isso não significa, por si só, que ele receberá votos. Muitas vezes, esse alcance fica restrito a um nicho específico ou a uma bolha de determinado grupo social”, explica Aruaque Barbosa, destacando que a eficácia real das redes só será aferida nas urnas.
No cenário em que cerca de 2 milhões de eleitores sul-mato-grossenses irão às urnas, a tendência consolidada é o investimento concomitante: a televisão focará na apresentação institucional e formal dos programas, enquanto as redes sociais ditarão o ritmo diário, o engajamento e a resposta rápida da campanha.
Com informações de Correio do Estado.

