
A Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet) lançou uma diretriz técnica que promete acender o debate sobre a segurança nas vias brasileiras. O documento, intitulado Tolerância Humana a Impactos: Implicações para a Segurança Viária, traz um dado alarmante: um acréscimo de apenas 5% na velocidade permitida pode resultar em um salto de 20% no número de óbitos.
O alerta surge em um momento de transição administrativa, com a recente vigência da Medida Provisória 1327/2025, que autoriza a renovação automática da Carteira Nacional de Habilitação (CNH) para condutores “positivos”, dispensando exames de aptidão física e mental em determinados casos.
O Limite Biológico da Velocidade
De acordo com a Abramet, as políticas públicas de trânsito têm ignorado um fator fundamental: a biomecânica. O corpo humano possui uma capacidade limitada de absorção de energia. Quando um veículo aumenta sua velocidade, a energia liberada em um eventual impacto cresce de forma exponencial, e não linear.
“Não estamos lidando apenas com comportamento ou engenharia, mas com limites biológicos. Quando esses limites são ignorados, o resultado é o aumento de mortes e sequelas graves, mesmo em velocidades consideradas legais”, avalia o presidente da Abramet, Antonio Meira Júnior.
Pontos Críticos da Diretriz:
- Energia Letal: Em colisões com pedestres ou ciclistas, a velocidade é responsável por 90% da energia transferida ao corpo da vítima.
- Ameaça SUV: O crescimento da frota de veículos com frentes elevadas (SUVs) aumenta o risco de lesões fatais, mesmo em velocidades moderadas.
- Vulnerabilidade: Dados do DataSUS revelam que pedestres, ciclistas e motociclistas compõem 75% das internações por sinistros de trânsito.
O Risco da Renovação Automática
A Abramet classifica como “especialmente sensível” a dispensa de exames médicos na renovação da CNH. A entidade defende que a aptidão para dirigir não é um estado permanente. Condições como envelhecimento, distúrbios do sono, osteoporose e doenças cardiovasculares alteram a resistência do indivíduo a impactos e sua capacidade de reação.
A avaliação periódica é vista como um filtro essencial para identificar motoristas que, embora não tenham cometido infrações (critério para a renovação automática), podem apresentar condições clínicas que comprometem a segurança coletiva.
Entenda a MP 1327/2025 (Renovação Automática)
Na primeira semana de validade, a medida beneficiou mais de 323 mil condutores, gerando uma economia de R$ 226 milhões em taxas.
| Categoria | Beneficiados | Perfil |
| B (Carros) | 52% | Condutores sem infrações nos últimos 12 meses. |
| AB (Carro/Moto) | 45% | Inscritos no Registro Nacional Positivo (RNPC). |
| A (Motos) | 3% | Cadastro via aplicativo Carteira Digital de Trânsito. |
Exceções à Regra: Motoristas com 70 anos ou mais, condutores com doenças progressivas já identificadas ou aqueles com a CNH vencida há mais de 30 dias não possuem direito ao processo automático e devem realizar os exames habituais.
Recomendações para a Sociedade
A diretriz conclui que decisões sobre o trânsito não podem se pautar apenas pela “fluidez” ou “conveniência administrativa”. A Abramet defende:
- Limites de velocidade estritamente compatíveis com a sobrevivência humana.
- Políticas permanentes de gestão de velocidade baseadas em dados clínicos.
- Educação voltada para a compreensão da fragilidade do corpo humano no trânsito.

